Tenho lembranças muito antigas do ato de cozinhar e/ou acompanhar minha mãe, minha avó, no preparo de alimentos e refeições. Lembro do sabor da maçã raspadinha do lanche da tarde, do perfume de bolinhos de chuva, de abrir a massa dos biscoitos nas férias.
Cozinhar para mim sempre foi muito mais que o ato de preparar algo para comer. O ato em si é tão cheio de significados. E, óbvio, eu adoro comer. Provar. Testar.
Aos poucos, me percebi cada vez mais ligada à cozinha. Com sete anos, escolhi o livro de receitas da Magali na banca de jornal e cozinhei várias - quando não, ficava 'planejando' eventos, pensando em cardápios para quando viesse uma amiga, quando fizesse um picnic, quando fosse aniversário da boneca. Muitas receitas jamais saíram daquelas páginas, mas o livro segue na minha prateleira de receitas até hoje.
Mais velha, morando sozinha, cozinhar era mais que prazer, era também necessidade. E isso só fez aumentar o prazer - ao contrário do que muitos dizem, cozinhar por "obrigação" me inspirava a buscar alternativas e novidades quase que diariamente. O menu da casa dos meus pais não era mais o meu menu; eu comecei a ter os clássicos da casa da Carol e isso já me alimentava de um jeito tão profundo! O bolo de chocolate da Carol, a torta de cebola da Carol, as panquecas, o risoto, o mousse...
Cozinhar me ensinou muitas coisas além dos sabores e temperos. E hoje, lendo o texto A cozinha como treino pra vida, publicado no Papo de Homem, me dei conta de como evoluí como pessoa e profissional cozinhando, como cozinhar influi diretamente nos outros todos aspectos da minha vida.
Ansiosa que sou, cozinhar me ajuda a desacelerar. A parar. E aí cortar, lavar, picar, separar, pesar, escolher, medir, refogar, assar, virar, fatiar, esperar. Cozinhar é uma ação, não um fim. E que demanda espera. Paciência. Coisa que só não me falta quando estou à frente do combo bancada-pia-forno&fogão.
Quando me sinto irritada, sem foco, cansada, a saída é bater um bolo. Alguns saem pra correr, outros para beber, outros vão dormir, eu tenho vontade de assar um bolo bem perfumado. Me renova.
Mas também percebi que meu estado de espírito reflete diretamente no resultado do que sai das panelas e formas. E aí, mais um aprendizado: me frustro (também e até) fazendo o que mais gosto da vida. E quando isso acontece, é porque 'bater um bolo' não resolve, é preciso ir mais além e olhar mais fundo.
Grávida, me percebi distraída, porém calma. Isso atrapalhou algumas receitas mas, pela calma, eu notava e corrigia. Antes de por a massa na assadeira, checava os ingredientes e mais de uma vez só não esqueci o fermento por ter feito o checklist. Mas quando a gravidez avançou e me percebi com medo, tensa, irritada e ansiosa, preocupada demais com o futuro, com a pergunta "como será?" martelando sem parar, cheia de questões e dúvidas, correr fugida para a cozinha não resolveu... Esqueci de temperar a carne e o polpetone ficou sem sabor. Coloquei só metade da quantidade de farinha e o muffin não só vazou como ficou com cara de pudim e sem maciez. Cortei um dedo, esqueci o shoyu, derramei calda, pulei etapas. E isso me fez sair da cozinha tão frustrada!
Como no texto do Alberto, eu aprendi a me planejar e a esperar. Mas aprendi também a maior das lições da cozinha: quando se testa uma receita nova, não se sabe o que vai encontrar. Um mistério. Resta seguir os passos propostos, esperar o tempo e então provar. Talvez tentar de novo, adaptando isso ou aquilo. Quando dá certo, entra no caderno - se não der, outras tantas estão aí. Outros jeitos, outros molhos e caldas, outros temperos.
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quarta-feira, 8 de julho de 2015
Receita nova é aquela que você nunca provou
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Sobre cozinhar, sobre cozinhas
Um texto do Rubem Alves tão lindo que não tinha outra escolha a não ser guardá-lo e compartilhá-lo aqui no blog.
Aprendendo das cozinheiras - Rubem Alves
A se acreditar em entendidos em coisas de outros mundos, já devo ter sido cozinheiro em alguma vida passada. É que tenho um fascínio enorme pelas panelas, pelo fogo, pelos temperos e por toda a bruxaria que acontece nas cozinhas, para a produção das coisas que são boas para o corpo. Não é só uma questão de sobrevivência. Os cozinheiros dos meus sonhos não se parecem com especialistas em dietética.
É o fim do sumiço. Feliz ano novo!
Aprendendo das cozinheiras - Rubem Alves
A se acreditar em entendidos em coisas de outros mundos, já devo ter sido cozinheiro em alguma vida passada. É que tenho um fascínio enorme pelas panelas, pelo fogo, pelos temperos e por toda a bruxaria que acontece nas cozinhas, para a produção das coisas que são boas para o corpo. Não é só uma questão de sobrevivência. Os cozinheiros dos meus sonhos não se parecem com especialistas em dietética.
Interessa-me mais o prazer que aparece no rosto curioso e sorridente de alguém que tira a tampa da panela, para ver o que está lá dentro. Minhas cozinhas, em minhas fantasias, nada têm a ver com estas de hoje, modernas, madeiras sem a memória dos cortes passados e das coisas que se derramaram, tudo movido a botão, forno de micro-ondas, adeus aos jogos eróticos preliminares de espiar, cheirar, beliscar, provar, perfurar... Tudo rápido, tudo prático, tudo funcional. Imaginei que quem assim trata a cozinha, no amor deve ser semelhante aos galos e galinhas, quanto mais depressa melhor, há coisas mais importantes a se fazer. Como aquele vendedor de pílulas contra a sede, da estória do "Pequeno Príncipe". Ir até o filtro é uma perda de tempo. Com a pílula elimina-se a perda inútil. “E que é que eu faço com o tempo que eu perco?" — perguntou o Principezinho.
"...Você faz o que quiser", respondeu o vendedor." — Que bom! Então, é isto o que vou fazer, ir bem devagarzinho, mãos nos bolsos, até a fonte, beber água..."
Quero voltar à cozinha lenta, erótica, lugar onde a química está mais próxima da vida e do prazer, cozinha velha, quem sabe com alguns picumãs pendurados no teto, testemunhos de que até mesmo as aranhas se sentem bem ali.
Nada melhor que o contraste. A sala de visitas, por exemplo. Lá no interior de Minas, faz tempo. Retrato silencioso oval do avô, na parede; samambaia no cachepô de madeira envernizada; porta-bibelôs; as cadeiras, encostos verticais, 90 graus, para que ninguém se acomodasse; capas brancas engomadas pra que nenhuma cabeça brilhantinosa se encostasse; os donos dizendo em silêncio "está mesmo na hora", enquanto a boca mente dizendo "ainda é cedo", na hora da partida, junto com as recomendações á tia Sinhá (porque toda família tinha de ter uma tia Sinhá). Aí a porta se fechava, e a vida recomeçava, na cozinha...
A porta da rua ficava aberta. Era só ir entrando. Se não encontrasse ninguém não tinha importância, porque em cima do fogão estava a cafeteira de folha, sempre quente, para quem quisesse. Tomava-se o café e ia-se embora, havendo recebido 0 reconforto daquela cozinha vazia e acolhedora. Eu diria que a cozinha é o útero da casa: lugar onde a vida cresce e o prazer acontece, quente... Tudo provoca o corpo e sentidos adormecidos acordam. São os cheiros de fumaça, da gordura queimada, do pão de queijo que cresce no forno, dos temperos que transubstanciam os gostos, profundos dentro do nariz e do cérebro, até o lugar onde mora a alma. Os gostos sem fim, nunca iguais, presentes na ponta da colher para a prova, enquanto 0 ouvido se deixa embalar pelo ruído crespo da fritura e os olhos aprendem a escultura dos gostos e dos odores nas cores que sugerem o prazer...
Cozinha: ali se aprende a vida. É como uma escola em que o corpo, obrigado a comer para sobreviver, acaba por descobrir que o prazer vem de contrabando. A pura utilidade alimentar, coisa boa para a saúde, pela magia da culinária, se torna arte, brinquedo, fruição, alegria. Cozinha, lugar dos risos...
Pensei então se não haveria algo que os professores pudessem aprender com os cozinheiros: que a cozinha fosse a antecâmara da sala de aulas, e que os professores tivessem sido antes, pelo menos nas fantasias e nos desejos, mestres-cucas, especialistas, nas pequenas coisas que fazem o corpo sorrir de antecipação. Isto. Uma Filosofia Culinária da Educação. Imaginei que os professores, acostumados a homens ilustres, sem cheiro de cebola na mão, haveriam de se ofender, pensando que isto não passa de uma gozação minha.
Logo me tranqüilizei, ouvindo a sabedoria de Ludwig Feuerbach, a quem até mesmo Marx prestou atenção: "O homem é aquilo que ele come". Abaixo Descartes. Idéias claras e distintas podem ser boas para o pensamento. Também bombas atômicas e as contas do FMI são boas para serem pensadas. Só que não podem ser amadas, não têm gosto e nem cheiro, e por isto mesmo a boca não as saboreia e não entram em nossa carne.
Imitar os que preparam as coisas boas e ensinam os sabores...
A primeira lição é que não há palavra que possa ensinar o gosto do feijão ou o cheiro do coentro. É preciso provar, cheirar, só um pouquinho, e ficar ali, atento, para que o corpo escute a fala silenciosa do gosto e do cheiro. Explicar o gosto, enunciar o cheiro; pra estas coisas a Ciência de nada vale; é preciso sapiência, ciência saborosa, para se caminhar na cozinha, este lugar de saber-sabor. Cozinheiro: bruxo, sedutor. "— Vamos, prove, veja como está bom..." Palavras que não transmitem saber, mas atentam para um sabor. O que importa está para além da palavra. É indizível. Como ele seria tolo se avaliasse seus alunos por meio de testes de múltipla escolha. É assim com a vida inteira, que não pode ser dita, mas apenas sugerida. Lembro-me do mestre Barthes, a quem amo sem ter conhecido, que compreendia que tudo começa nesta relação amorosa, ligeiramente erótica, entre mestre e aprendiz, e que só aí que se pode saborear, como numa refeição eucarística, os pratos que o mestre preparou com a sua própria carne...
A lição dois é que o prazer do gosto e do cheiro não convivem com a barriga cheia. O prazer cresce em meio às pequenas abstenções, às provas que só tocam a língua... É aí que o corpo vai se descobrindo como entidade maravilhosamente polimórfica na sua infindável capacidade para sentir prazeres não pensados. Já os estômagos estufados põem fim ao prazer, pedem os digestivos, o sono e a obesidade. Cozinheiros de tropa nada sabem sobre o prazer. A comida se produz às dezenas de quilos. Pouco importa que os corpos sorriam. Comida combustível. Que os corpos continuem a marchar. Melhor se fossem pílulas. Abolição da cozinha, abolição do prazer: pura utilidade, zero de fruição.
"— Estava boa a comida?"
"— Ótima. Comi um quilo e duzentas gramas..."
Equação desejável, pela redução do prazer à quantidade de gramas. Não deixa de ser uma Filosofia... Como aquela que desemboca nos cursinhos vestibulares e já se anuncia desde a primeira série do primeiro grau. Não se trata da erotização do corpo. Para a engorda tais sensibilidades são dispensáveis. Artifício na criação de gansos, para a obtenção de fígados maiores: funis goelas abaixo e por ali a comida sem gosto. Afinal, por que razão o prazer de um ganso seria importante? Seus donos sabem o que é melhor para eles... Vi nossos moços assim, funis goela abaixo, e depois vomitando e pensando o seu vômito. A isto se chama ver quantos pontos se fez no vestibular...
Entendem por que eu queria uma filosofia culinária de educação? É que temos tornado os criadores de ganso como modelos...
Texto extraído do livro “Estórias de quem gosta de ensinar – O fim dos vestibulares”
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sexta-feira, 11 de julho de 2014
Cozinhar = amar
"Cozinhar é o mais privado e arriscado ato.
No alimento se coloca ternura ou ódio.
Na panela se verte tempero ou veneno.
Cozinhar não é serviço.
Cozinhar é um modo de amar os outros."
(Mia Couto - O Fio das Missangas)
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